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Do Dia da Mãe ...


 
Estas foram as prendas do Gabriel, que fez na escola. Andou aflito durante a semana porque eu não podia mexer na mochila e é comigo que quer sempre fazer os trabalhos de casa, mas como eu gosto de surpresas, mesmo que saiba onde estão os presentes e as surpresas não vou ver, prefiro a surpresa e o momento da oferta. A Margarida ofereceu-me um anel do Touro e uma caixinha de incenso, ela sabe que eu adoro incensos e velas. O Artur fez o jantar, e para a semana há-de fazer o meu bolo de aniversário e eu vou querer uma coisa chique depois vêm. Assim se passou mais um Dia da Mãe este ano já com 4 filhotes lindos e todos pertinho de mim.
Esta foto já tem 6 anos, foi a ultima que lhe tirei e que ela estava lúcida, um dos momentos de lucidez que ainda tinha nesta altura, hoje em dia já não tem momentos de lucidez há 2 anos, e está tão magra, tão debilitada que tenho algumas fotos mas são só para mim, não quero que ninguém as veja, já não é a minha mãe, nem sequer é parecida com ela em nenhum aspecto.

Tenho saudades dela assim esta foto tem 20 anos, aqui estava ela com o Artur ao colo o seu neto mais velho, e afilhado sim que na minha terra é tradição as avós serem madrinhas dos netos, este foi sem duvida o neto que mais conviveu com ela e que a conheceu em pleno das suas qualidades. Quando olho para estas fotos dela vejo-me a mim, sou tão parecida com ela, e estou cada vez mais, até as sardas e manchas na cara tenho igual. Ela ia adorar conhecer a Mafalda, mas infelizmente ela nunca se vai lembrar, nem a Mafalda, o Gabriel ainda tem umas pequenas memórias das visitas, mas deixei de o levar por ser difícil para ele aceitar que a avó não o conhece e das ultimas vezes até chorou, assim apenas vou eu o meu marido e os mais velhos que gostam de a ver. Mas há muito que a perdi, que deixou de ser a minha mãe e apenas restou uma sombra. Esta doença é dura principalmente para nós, que os vemos assim desaparecer em vida.

Beijinhos e até já ...

 

Sinto tanto a falta dela ...

Da minha mãe.
Dava tudo para a ter aqui ao pé de mim, mesmo com o seu mau feitio, mesmo sendo autoritária, mesmo sem paciência nenhuma queria tê-la aqui, poder falar com ela, partIlhar mais esta gravidez, é a minha ultima gravidez e a 1ª em que ela não participa. A forma austera, exigente, agressiva, intolerante sem paciência fez de mim o que sou hoje, foi ela que me educou, me criou, me ensinou tudo o que sei, foi com ela que aprendi a cuidar do Artur e aí pela 1ª vez conheci a parte carinhosa dela, ela com ele era fabulosa, ele adorava-a, no dia em que o Artur nasceu percebi o quanto ela me amava, estive em risco de vida e precisei de cuidados especiais durante 1 mês e foi ela que esteve na minha cabeceira sempre, e não conseguia mostrar felicidade por ser avó ao ver a sua filha naquele estado. Queria ouvir a sua voz, sentir o seu cheiro, hoje em dia existe apenas o que resta dela, o seu corpo magro, o seu olhar vazio e uma voz arrastada em que nunca diz nada com sentido e ás vezes chama por mim, como sempre chamou, mas só isso nada mais, entra logo no seu estado vegetal. Nunca me reconhece, apenas o meu nome, e eu cada vez que me vejo ao espelho, vejo-a a ela, somos tão parecidas. Não tive uma infância feliz, muito pelo contrário, mas no fundo a culpa não foi dela, foi de quem a abandonou e nunca se importou com nada, e ela nunca aceitou isso, e por vezes as pessoas vingam-se naqueles que mais amam, e ela tornou-se fria, distante incapaz de amar e mostrar amor. Hoje em dia já lhe perdoei tudo e o que mais desejava era tê-la aqui, penso nela a toda a hora e mesmo quando a vou visitar, não a vejo, aquela não é a minha mãe a minha mãe já a perdi há 6 anos atrás quando a doença chegou, mesmo estando perto de mim, ela partiu para nunca mais voltar. Perdi as 2 mulheres que me criaram e fizeram de mim o que sou hoje a minha avó aos 16 anos e a minha mãe aos 34. Mãe tenho saudades tuas, saudades que doem tanto e que jamais irei matar, fazes-me falta, sinto falta até de ralhares comigo, apesar de tudo sei que eu era o teu amor maior.


1 de Junho - Dia da Criança e não só ...


 Hoje a minha mãe faz 67 anos, há 7 que tem Alzheimer, ou que pelo menos sabemos disso, pois sintomas tinha vários á muitos anos, hoje em dia já não sabe quem é, quem eu sou, de onde veio nem para onde vai, está presa numa parte do seu passado, aquela parte em que foi mais feliz, na sua infância, está á espera da mãe e aflita que a mãe não chega. Já não tem momentos de lucidez há mais de 1 ano, continua a andar, andar, andar presa num qualquer dia da sua infância em que foi a uma procissão, anda e canta sem parar, um cantar baixinho de quem está na procissão. Hoje em dia sei quase todas as resposta para as perguntas que me atormentaram durante quase 40 anos, tive uma infância de sonho até aos 7 anos e depois um dia de Verão tudo mudou para sempre, tudo mudou e ela mudou, mudou para sempre, nunca mais foi a mesma desde aquele horrível dia, acho que nunca em tempo algum ela tinha equacionado aquela hipótese, aquilo que ela achava impossível aconteceu, e ele levou com ele tudo, levou a esperança, a felicidade, a alegria, o amor, o carinho, a vontade de viver deixando apenas para trás uma mulher ferida e 2 crianças que não tinham culpa, mas a todo o momento a lembravam que ele existia, estávamos ali as provas, e como tal ela nunca conseguiu avançar, nunca conseguiu abrir todas as janelas que se abririam depois de ela fechar totalmente a porta, nunca a fechou, nunca esqueceu e isso lamentavelmente levou-a á frieza, á insensibilidade, á dureza, á austeridade, á agressividade, á revolta e finalmente á loucura, sim essa loucura a que chamam demência que é mais forte do que tudo e que lhe trouxe a Alzheimer para lhe acalmar o coração, esqueceu tudo mas a agressividade ficou, essa não sai, não desiste, está entranhada. Hoje em dia é tarde demais para tudo, nada há a fazer a não ser perdoar tudo o que fez, hoje em dia sabendo e compreendendo o porquê é tão mais fácil, e tentar dar-lhe um fim de vida o mais digno e confortável possível. No fundo tudo o que sou agradeço a ela, á minha mãe, apesar de tudo acho que fez um bom trabalho, só lamento o facto de ela nunca me ter dado um abraço e um beijo quando ainda estava lúcida, de nunca ter dito que me amava e que eu era o orgulho dela.

" É na educação dos filhos que se revelam as virtudes dos pais"
Coelho Neto

 "A coisa mais importante que um pai pode fazer pelos seus filhos é amar a mãe deles"
 Alex Gabriel Madrigal

 Beijinhos e até já ...

Adenda: Hoje reconheceu-me mal cheguei, por breves 30 segundos, mas reconheceu e disse o meu nome.